domingo, 8 de dezembro de 2019

Bolchevismo e Antissemitismo (1917-1953)

- Os bolcheviques judeus sacrificam a Rússia no altar do marxismo.



Desde o início da Revolução de 1917 o antissemitismo foi usado contra o bolchevismo. Os “exércitos brancos”, apoiados pelo imperialismo, afirmavam que a Revolução de Outubro era mais uma página da conspiração judaica universal e organizavam pogroms. Lênin declarou: “Apenas as pessoas totalmente ignorantes ou embrutecidas podem acreditar nas mentiras e calúnias disseminadas contra os judeus (...). Os inimigos dos trabalhadores não são os judeus, e sim os capitalistas”. O governo soviético reconheceu-os como nação, com direito a uma língua, uma cultura e território próprios. Criminalizou o racismo e o antissemitismo. Algumas décadas depois o Exército Vermelho, comandado por Stalin, derrotou as hordas nazifascistas, salvando milhões de judeus. A própria criação e sobrevivência do Estado de Israel se deve, em grande parte, aos soviéticos.,
A relação entre o socialismo soviético e o judaísmo deu a base para inúmeras afirmações, no mínimo, paradoxais. Um livro de Isaias Golcher chegou a afirmar: “Stalin teve em mente completar a obra que seu aliado Hitler não pode concluir: fazer uma Europa ‘expurgada de judeus’ (...). Depois de Hitler, o maior inimigo do povo judeu foi Stálin (...). Stalin (...) compartilhava do ódio bestial de Hitler contra os judeus”. Contraditoriamente, “ele passou a vida toda como vigoroso adversário do antissemitismo.” E, em sua feroz campanha antissemita, “jamais mencionava o nome ‘judeu’ e chegava mesmo a fazer referências condenatórias ao judeofobismo”. Opinião disseminada amplamente durante a Guerra Fria. 
Trotsky, em Termidor e antissemitismo (1937), lembrava que em apenas 20 anos era impossível superar um preconceito enraizado entre os setores mais atrasados da população. Escreveu: “A Rússia era conhecida não apenas por seus pogroms, mas também pela existência de um número considerável de publicações antissemitas (...). A metade mais velha da população foi educada sob o czarismo. A metade mais jovem herdou muito dos mais velhos (...). É impossível que preconceitos nacionais e chauvinistas, particularmente o antissemitismo, não tenham persistido fortemente entre as camadas atrasadas da população”. Existia, porém, outra razão para o antissemitismo continuar existindo na sociedade soviética: “os judeus ocupavam um lugar desproporcionalmente grande entre a burocracia (...). O ódio dos camponeses e trabalhadores pela burocracia é um fato fundamental da vida soviética”. E conclui que esse ódio, “assumiria uma cor antissemita”. A afirmação de Trotsky testemunha o quão longe a URSS estava da Alemanha nazista. Esta proibia os judeus de ocupar cargos públicos e de exercerem várias profissões, além de organizar pogroms contra eles. Em breve começariam as deportações em massa e a construção dos campos de extermínios. Mais de seis milhões de judeus morreriam nas mãos dos nazistas e seus aliados. 
Os judeus e a revolução social
Na tradição marxista o papel desempenhado pelos judeus era, em geral, considerado positivo. Kautsky, principal teórico da II Internacional pós-Engels, afirmou: “Os judeus tornaram-se um eminente fator revolucionário”. O líder da Revolução Russa, Lênin, falou dos “nobres traços universalmente progressistas da cultura judaica: o seu internacionalismo e a sua adesão aos movimentos progressistas. (...) O percentual dos judeus aderentes aos movimentos democráticos e proletários é, em toda parte, mais alto do que o percentual dos judeus na população em geral”. Isso açulava ainda mais a propaganda contrarrevolucionária, sempre procurando associar marxismo e judaísmo. 
As mitologias de uma conspiração judaica mundial são bem antigas e foram muito utilizadas pelas igrejas cristãs e pelos setores mais reacionários da sociedade desde o feudalismo. Na Rússia, a tentativa de ligar os judeus aos movimentos revolucionários teve como um dos seus marcos o assassinato do Czar Alexandre II, realizado pelo grupo Vontade do Povo, em março de 1881. O atentado tornou-se o álibi para a realização de pogroms em Kiev, Odessa e outras dezenas de localidades. O antissemitismo tornou-se uma arma ideológica contra a oposição ao czarismo, especialmente os socialistas. 
O sucessor ao trono, Alexandre III, era ainda mais conservador. Seu reinado durou até 1894, quando assumiu Nicolau II. Segundo Trotsky, no início do século 20, existiam cerca de 650 leis limitando os direitos cívicos dos judeus russos. Os jovens foram praticamente excluídos das universidades e de várias profissões, aproximando-os de posições revolucionárias. 
Uma nova onda de pogroms estalou em 1903. O mais famoso ocorreu em Kichinev, capital da Bessarábia, no qual morreram mais de 50 pessoas e 500 ficaram feridas. No mesmo ano forjou-se nos porões da polícia secreta a mais importante obra do antissemitismo: Os protocolos dos sábios do Sião, tratando de uma mirabolante conspiração judaica visando dominar o mundo. O seu maior divulgador nos Estados Unidos foi o industrial Henry Ford. Descobriu-se a fraude em 1921, mas de nada adiantou, pois ela continuou sendo utilizada pelos antissemitas e nazifascistas. No seu Main Kampf, escrito entre 1925-1926, Hitler afirmou: “Os Protocolos dos Sábios do Sião, tão detestado pelos judeus, mostram, de uma maneira incomparável, a que ponto a existência desse povo é baseado numa mentira ininterrupta. ‘Tudo é falsificado’, geme sempre o Frankfurter Zeltung, o constitui mais uma prova de que tudo é verdade”.  No Brasil a obra foi publicada em 1937, traduzida e divulgada pelo líder integralista Gustavo Barroso.  
Pressionado pela revolução, em outubro de 1905, o Czar Nicolau II promulgou o Manifesto Constitucional, garantindo alguns poucos direitos democráticos. A direita pró-absolutismo respondeu com novos pogroms. Escreveu o Czar: “Logo após o Manifesto (constitucional) os maus elementos levantaram a cabeça, logo se produziu uma forte reação, e toda massa de homens fiéis se pôs de pé. O resultado foi naturalmente o mesmo que o de costume: o povo ficou exasperado pela audácia dos revolucionários e dos socialistas, e como nove décimo são judeus, toda cólera se voltou contra eles – daí os pogroms. É surpreende constatar com que unanimidade explodiram imediatamente em todas as cidades da Rússia.” Na verdade, por trás desses massacres “espontâneos” estavam agentes policiais e grupos de extrema-direita. 
Às vésperas da I Guerra Mundial, os bolcheviques apresentaram ao parlamento um projeto de lei propondo abolir todas as restrições legais existente contra as minorias nacionais. “Mas ele, afirmou Lênin, se detém particularmente nas restrições contra os judeus. O motivo disso é bastante compreensível: nenhuma nação na Rússia é tão oprimida e perseguida quanto a judaica.” Em janeiro de 1917 diria: “Os judeus forneceram uma porcentagem particularmente elevada (...) de líderes do movimento revolucionário (...), comparada a outras nações.” As posições de Lênin começavam a mudar, considerando os judeus enquanto nação. 
A contrarrevolução e o antissemitismo 
Desde a Revolução de Fevereiro de 1917 o antissemitismo passou a ser usado contra os bolcheviques. Em setembro o Times londrino escrevia: “Os sovietes é composto (...), na maioria dos casos, por típicos judeus internacionais”. Dois meses depois, o mesmo jornal afirmaria: “Lênin e vários de seus confederados são aventureiros de sangue germano-judeu”. Por sua vez o correspondente do Morning Post escreveu: “Os extremistas, dirigidos por personagens de duplo nome, de origem germano-judaica, que se fazem passar por russos, Lênin-Zedeblum, Trotsky-Bronstein e outros da mesma laia, se apoderaram de Petrogrado (...). A imprensa publica numerosas proclamações que denunciam o governo judaico (...). A segunda etapa do grande jogo que aqui se joga é a derrubada do governo judeu”.
Durante a guerra civil os “exércitos brancos”, apoiados pelo Ocidente capitalista, divulgaram cópias de um folheto afirmando ser a Revolução Bolchevique mais uma página da conspiração judaica universal. O Almirante Kolchak, dominador da Sibéria, em fevereiro de 1919, discursou aos camponeses: “Desperta, povo russo, toma o teu bastão e expulsa a canalha judia, que arruína a Rússia”. Nas regiões por eles ocupadas ocorreram cerca de 2 mil pogroms, vitimando mais de 75 mil judeus e causando o êxodo de cerca de um milhão deles. As comunidades judaicas procuravam abrigo junto aos “vermelhos” como forma de garantir suas vidas e propriedades.
Quando as forças britânicas, por sua vez, desembarcaram na Rússia também distribuíram fartamente materiais de propaganda anti-judaicos. O reverendo B. S. Lombard, capelão da sua Marinha, dizia: “(o bolchevismo) é um produto da propaganda alemã e dirigido pelos judeus internacionais.” O futuro primeiro-ministro inglês, Churchill, afirmou em janeiro de 1920: “(os bolcheviques) querem destruir toda fé religiosa que consola e inspira o ânimo humano. Creem no soviete internacional dos judeus russos e polacos. Nós continuamos a crer no Império Britânico”. 
 
Propaganda nazista contra a ameaça da dominação mundial judaico-bolchevique.
No transcurso das revoluções alemã e húngara um falso documento secreto do governo francês, produzido por emigrados russos, circulou por toda a imprensa ocidental: “Os judeus já obtiveram o reconhecimento formal de um Estado judeu na Palestina (através da Declaração Balfour); conseguiram igualmente constituir uma república judaica na Alemanha e na Hungria; são esses os primeiros passos rumo ao futuro domínio mundial pelos judeus, mas não seu último esforço.”  O mesmo Churchill escreveria: “Esse movimento entre judeus não é novo. Já desde os dias de Spartakus Weishaupt (os iluminados da Baviera) até os dias de Marx e, depois, de Trotsky (Rússia), de Bela Kun (Hungria), de Rosa de Luxemburgo (Alemanha) e de Emma Goldman (Estados Unidos) se expande essa conspiração mundial pela derrocada da civilização e pela transformação da sociedade (...) numa inveja maléfica e em uma igualdade impossível.”. 
Lembramos das palavras do próprio Hitler na sua precoce autobiografia, Mein Kampf (1925), marcada pelo discurso do complô judaico-bolchevismo. Nela está escrito: “É tão impossível à Rússia livrar-se do jugo judaico (...), como ao judeu manter o controle sobre o vasto império ainda por muito tempo. Ele não é um elemento organizador, mas antes um fermento de decomposição. O imenso império está prestes a ruir. O fim do domínio judaico será também o fim da Rússia como Estado. (...) uma catástrofe que será a mais formidável confirmação da verdade da teoria racial”. “Devemos enxergar no bolchevismo russo e tentativa do judaísmo, no século XX, de apoderar-se do domínio do mundo”. O marxismo bolchevista teria como finalidade última “a destruição de todas as nacionalidades não judaicas”. Na Rússia soviética o “judeu com uma ferocidade verdadeiramente fanática, trucidou cerca de 39 milhões de pessoas, algumas por meio das torturas desumanas, outros pela fome, e tudo isso com o fito de assegurar a um lote de judeus literatos e bandidos da bolsa o domínio sobre um grande povo”. 
Os bolcheviques contra o antissemitismo e os pogroms
Ao contrário do que faziam os exércitos brancos, em março de 1919, Lênin gravou em disco o discurso “Sobre os pogroms contra os judeus”. Ele era tocado nas aldeias. O objetivo era atingir as massas populares analfabetas, impossibilitadas de ler os panfletos bolcheviques. Discursou Lênin: “A abominável monarquia tzarista, ao viver seus últimos dias, buscava lançar os operários e camponeses ignaros contra eles e organizava pogroms. (...). A hostilidade aos judeus permanece forte apenas onde a dominação dos latifundiários e capitalistas promoveu um obscurantismo entre os operários e camponeses. Apenas as pessoas totalmente ignorantes ou embrutecidas podem acreditar nas mentiras e calúnias disseminadas contra os judeus (...). Os inimigos dos trabalhadores não são os judeus, e sim os capitalistas de todos os países. (...) Malditos sejam os que semeiam a hostilidade aos judeus e o ódio a outras nações”. (Ouça o discurso completo de Lênin legendado https://www.youtube.com/watch?v=3HL6236mBdU )
O historiador anticomunista, Leonard Schapiro, não escondeu que: “milhares de judeus se aliaram aos bolcheviques (...). No momento da tomada do poder, a participação judaica estava longe de insignificante na cúpula do partido. Cinco dos vinte e um membros titulares do Comitê Central eram judeus.”  Entre 1917-1918 o número de judeus bolcheviques subiu para 16%. Eles representavam menos de 5% da população.
Então, Lênin incorpora parte do programa do União Geral Operária Judaica da Lituânia, Polónia e Rússia (Bund), reconhecendo os judeus como nação, com direito a uma língua, uma cultura e território próprios. Foram revogadas todas as legislações contra as minorias nacionais e se criminalizou o antissemitismo. Os bolcheviques constituíram uma seção judaica (Evserskia) no partido e um Comissariado para assuntos judaicos. Reconheceu-se o iídiche como língua oficial dos judeus russos. Em meados da década de 1930 existiam 2.400 escolas judaicas com cerca de 600 mil alunos. No mesmo período foi criada a Região judaica autônoma do Birobidjão. “Pela primeira vez na história do povo judeu está realizando o seu ardente desejo de formar sua Pátria, seu próprio Estado Nacional”. Segundo Arlene Clemesha: “Os primeiros anos da revolução foram marcados por um florescimento, sem precedentes na Rússia, da cultura judaica (...) Na medida em que tiveram uma liberdade jamais vista para a utilização de sua língua, publicação de livros, revistas e jornais, manutenção de escolas onde o idioma era o ídiche, enfim, em todos os aspectos culturais”. 
Stalinismo e antissemitismo
Em 1929 o Estado soviético, já sob direção de Stálin, publicou o livro de G. Ledatt intitulado O antissemitismo e os antissemitas: perguntas e respostas numa tiragem de 50 mil exemplares. Nele está escrito: “O micróbio do antissemitismo penetrou mesmo em certos setores atrasados do Partido (...). O incremento do antissemitismo está intimamente ligado à intensificação da luta de classes (...). Numa fábrica um processo contra os antissemitas revelou que antigos agentes policiais e mesmo padres encontraram asilo nesse local. Eles haviam subjugado um grupo de operários fiéis ao passado”. Ocorreram 38 processos por antissemitismo somente em Moscou entre janeiro e setembro de 1928. 
 
Manifestação do Primeiro de Maio em Tel Aviv homenagem a Stalin
Numa entrevista concedida à Agência Telegráfica Judaica, em janeiro de 1931, Stalin afirmou: “O antissemitismo, sendo uma forma extrema de chauvinismo racial, é o remanescente mais perigoso do canibalismo. O antissemitismo é útil para os exploradores (...) para proteger o capitalismo de ser derrubado pelo povo trabalhador. O antissemitismo é um perigo para os trabalhadores; é um caminho errado que os desvia da estrada certa (...). Como internacionalistas, os comunistas não podem deixar de ser inconciliáveis ??e jurarem-se inimigos do antissemitismo”. Não podemos saber o que, no fundo, pensava Stalin. Mas, suas opiniões eram encaradas quase como uma ordem para os comunistas de todo o mundo. 
Mas, nem tudo foi tranquilo nesse campo. Nos Processos de Moscou (1936-1938) vários dos principais acusados eram de origem judaica. Isso levou à acusação de antissemitismo, embora nesses processos não tivesse aparecido a acusação de sionismo. Em resposta, o próprio Stálin teria dito: “Lutamos contra Trotsky, Zinoviev e Kamenev não porque são judeus, mas porque são oposicionistas”. Segundo Trotsky, o antissemitismo teria sido usado sub-repticiamente (não oficialmente) a fim de atingir as massas mais atrasadas. Isso estaria demonstrado no fato de se utilizarem os nomes verdadeiros (judeus) pelos quais os acusados não eram conhecidos, como Bronstein (Trotsky). Nestes casos devemos concordar que a condição de judeu não foi um dos motivos para as condenações. Vários judeus poderiam ser numerados entre os carrascos da oposição, como o chefe da polícia secreta Yagoda. Aqui não me aprofundarei nos Processos de Moscou sobre os quais tenho uma visão extremamente crítica. 
Quando a Alemanha nazista invadiu à URSS, em novembro de 1941, Stalin fez um contundente discurso perante o Soviete de Moscou: “O regime hitlerista é uma cópia do regime reacionário que existia na Rússia sob o domínio tzarista. É sabido que os hitleristas arrebatam os direitos dos operários e dos intelectuais, como fazia o czarismo; e que organiza também, com satisfação, matanças de judeus, próprias da Idade Média, tal como o regime tzarista. O partido hitlerista é o partido inimigo das liberdades democráticas, o partido reacionário medieval, o partido dos pogroms”. Nenhum grande líder ocidental foi tão duro publicamente contra o antissemitismo nazista. Por isso, Hitler gostava de dizer que por trás de Stalin estavam os judeus. 
Um autor insuspeito de stalinismo, Isaac Deutscher, escreveu: “Stalin, pessoalmente, era isento de preconceito racial grosseiro e cuidava de não transgredir abertamente o princípio partidário hostil ao antissemitismo. Os judeus se destacavam bastante entre os que cercavam (...). Litvinov passou mais de dez anos à frente do serviço diplomático soviético; Kaganovitch foi até o fim factotum de Stalin; Meklis era o principal comissário político do Exército; e Zaslavski e Ehrenburg eram os mais populares entre os bajuladores de Stálin”. Continua ele: “Enquanto os exércitos de Hitler avançavam, as autoridades soviéticas fizeram o possível para evacuar os judeus das áreas ameaçadas (...). Com a autorização de Stalin formou-se um Comitê Judaico Antifascista” E, “após a guerra, os soviéticos culpados de colaboração com os nazistas e de perseguição aos judeus foram punidos como traidores”. 
O Comitê Judaico Antifascista, criado em 1942, tinha alguns objetivos: “divulgar informações (...) sobre as atrocidades cometidas pelo regime nazista alemão. Deste modo, a acusação soviética no julgamento de Nuremberg pôde dispor de um relatório (‘O livro negro’) sobre as perseguições de judeus por parte dos nazistas.”. Sempre é bom lembrar que o Exército Vermelho foi o principal responsável pela derrota das hordas nazistas e a libertação dos campos de extermínios. Assim, milhões de judeus foram salvos. A vitória de Hitler representaria o seu extermínio completo. 
Os comunistas e o Estado de Israel
Durante a II Guerra Mundial os comunistas começaram a mudar sua posição quanto ao problema de um lar judaico na Palestina. O jornal Tribuna Popular, publicou o artigo “A posição dos comunistas em relação à Palestina”, assinada por M. Katz: “Pela primeira vez o PCEUA exprimiu o seu repúdio ao ‘livro branco’ de Chamberlain que proíbe e imigração e colonização judaica, apoiando a exigência do lar nacional judaico palestino. (...) Essa posição foi se formando a partir de 1935. Até então relacionavam a existência de um lar judeu na Palestina com o sionismo”. Os jornais comunistas passaram a publicar matérias denunciando a ação inglesa na Palestina, impedindo a imigração judaica. Os ingleses, por sua vez, pediam que a URSS, Romênia, Tchecoslováquia e Polônia parassem de enviar mais judeus à região. Dominique Vital esclarece: “A URSS apoiou direta ou indiretamente as operações clandestinas de imigração organizadas pela Agência Judaica nos países do Leste Europeu (...). Assim, entre 1948 e 1951, mais de 300.000 judeus da Europa Oriental chegaram a Israel; ou seja, mais da metade do total de imigrantes”, criando um fato consumado.
Andrei Gromyko, vice-ministro das relações exteriores soviético, dirigindo-se à Assembleia Geral da ONU afirmou: “A experiência do passado e especialmente da Segunda Guerra Mundial provou que nenhum dos países da Europa Ocidental tem sido capaz de dar ao povo judeu a ajuda necessária para a defesa de seus direitos e nem mesmo para a proteção de sua existência. Isso explica a aspiração dos judeus pela criação de um Estado para eles”. Mas, disse ser ainda favorável a “criação de um Estado judeu-árabe unificado”. Caso isso não fosse possível – devido as graves divergências entre judeus e árabes -  apoiaria a “partilha da Palestina em dois Estados”. Na ocasião, Ben Gurion, futuro primeiro-ministro de Israel, afirmou: “A União Soviética é o único poder que apoia nossa causa.”. 
Alguns meses depois, no dia 29 de novembro de 1947, a URSS e sua área de influência votaram favoravelmente pela divisão da Palestina em dois Estados como “único meio de reduzir o banho de sangue”. Poucas horas antes de se esgotar o mandato britânico, em 14 de maio de 1948, declarou-se a “independência” de Israel. O governo de Stalin foi o segundo a reconhecê-lo. A Tchecoslováquia tornou-se a principal fornecedora de armas aos grupos guerrilheiros judeus, incluindo o Hannaga - conhecido por suas práticas terroristas. Ben Gurion diria: “As armas tchecas salvaram o país (…). Foi a ajuda mais importante que obtivemos. Duvido muito que sem elas poderíamos ter sobrevivido aos primeiros meses”.  
 
Embaixadora israelense Golda Meir recepcionada na Sinagoga em Moscou em 1948.
Em setembro de 1948 chegou à Moscou Golda Meier, a primeira embaixadora do novo Estado. Foi calorosamente recebida na grande sinagoga por 30.000 pessoas. Mobilizações se repetiram no “ano novo judaico” e no Yon Kippur. Numa entrevista ela declarou: “eram dias de ‘lua de mel’, quando nós, israelenses, e os russos éramos grandes amigos”. Esses eventos massivos assustaram as autoridades soviéticas. Começavam a duvidar da fidelidade de alguns líderes russos de origem judaica e suspeitar do excesso de simpatia à Israel. Essas suspeitas eram exageradas e, dentro de alguns anos, levariam à tragédia para muitos comunistas russos.  
Enquanto Golda Meir era comemorada em Moscou, o primeiro-ministro David Ben Gurion recebia o embaixador estadunidense dizendo: “Israel saúda o apoio russo nas Nações Unidas. Mas não tolerará qualquer dominação soviética. Não só Israel é ocidental em sua orientação, mas nosso povo é democrata e tem claro que não pode se tornar forte e permanecer livre, exceto através da cooperação com os Estados Unidos”. O governo de Israel, oportunisticamente, namorava os dois lados, mas pendia claramente para o campo do imperialismo estadunidense. 
Por qual razão a URSS apoiou a criação de Israel? Primeira é que, durante a grande aliança antifascista, os judeus, especialmente os da Palestina, foram fiéis aliados contra a Alemanha. Parte do mundo árabe, pelo contrário, pensando na sua independência da França e da Inglaterra, penderam para o outro lado. Logo depois da guerra – quando já se anunciava a Guerra Fria - os colonos judeus se colocaram abertamente contrários a Inglaterra. Esta era contrária a criação de um Estado judeu e impedia militarmente a imigração de refugiados para região. Para Stalin, todo adversário do imperialismo inglês poderia ser um aliado em potencial. 
Conforme escreveu o jornalista Max Altman: “Os fundadores da nação israelense eram militantes sionistas na Europa nas primeiras décadas do século 20, bastante influenciados pelos ideais do socialismo (...). E isto se refletiu no modelo de país que acabaram formando. Os dois pilares desta construção (...) foram, na cidade, o Histadruth, a poderosa federação de trabalhadores, no campo, os 'kibutzim', fazendas coletivas de forte inspiração socialista (...). Partidos trabalhistas de centro-esquerda e esquerda sionista dominavam o Knesset (parlamento) e o partido da esquerda não sionista que reunia judeus e árabes tinha importante presença na cena política”. As coisas tenderam a piorar dia-a-dia. Nas eleições de 1949, o Partido Comunista obteve apenas 3,5%, e o Mapam, representante da esquerda sionista, conseguiu 15% dos votos. 
Israel optou definitivamente pelo campo imperialista anglo-americano durante a Guerra da Coréia (1950-1953). Em fevereiro de 1953 um grupo sionista – em reação às supostas perseguições aos judeus soviéticos – explodiu uma bomba na embaixada da URSS em Israel, deixando três feridos, incluindo a esposa do embaixador. Isso acarretou o rompimento diplomático entre os dois países. A mudança geopolítica consolidou-se a partir de 1955 quando a URSS se voltou para o mundo árabe, concluindo um acordo visando o envio de armas ao governo do Egito, presidido por Nasser, e denunciando mais firmemente o expansionismo israelense na região.
Antissemitismo ou antissionismo na URSS e no Leste Europeu?
Mais do que durante os Processos de Moscou (1936-1938) – no qual foram envolvidos vários dirigentes comunistas de origem judaica, como Trotsky -, os realizados no final da década de 1940 deram margem às acusações de antissemitismo da parte das autoridades da URSS. Essa visão embora não seja inteiramente falsa é exagerada.  
Após a Segunda Guerra Mundial muitos militantes de origem judia passaram a exercer cargos importantes nas Democracias Populares e no mundo cultural socialista oriental. Cerca de 1/3 do Comitê Central do PC da Hungria compunha-se de judeus, incluindo Rakosi, governante do país entre 1945 e 1956. Esse mesmo fenômeno ocorreu na Polônia, Romênia e Tchecoslováquia. Na Alemanha Oriental, pela primeira vez desde 1933, os judeus voltaram a assumir cargos no governo, inclusive no importante Ministério de Informação. Bertold Brecht construiu o seu teatro, apoiado pelo adido cultural soviético na Alemanha Oriental, o coronel Alexander Dymshitz (também judeu). O grande cineasta Eisenstein, apesar da censura stalinista, produziu obras importantes como Alexandre Nevsky e Ivan, o terrível. Todos financiados pelo Estado soviético. 
Como dissemos, o surgimento de Israel e sua gradual aproximação dos EUA fez aumentar as suspeitas quanto à fidelidade de algumas lideranças de origem judaica à União Soviética. As principais vítimas foram os membros do Comitê Judaico Antifascista, fechado por supostamente já ter cumprido o seu papel político com o final da guerra. O seu ex-presidente, o grande poeta e diretor do Teatro Nacional Judaico, Simon Mikhoels, morreu num acidente misterioso em 1948. Ele era membro do seleto comitê do Prêmio Stalin e já havia sido agraciado pelo seu trabalho literário, como artista do povo, e portava a prestigiada Ordem Lênin. Razão pela qual receberia muitos elogios da imprensa comunista e teria um funeral de Estado.
Neste mesmo ano Andrei Zhdanov desenvolveu uma ampla campanha contra o denominado cosmopolitismo na área cultural, defendendo um realismo socialista estreito e o nacionalismo. A cultura iídiche soviética – considerada a mais desenvolvida do mundo -  entrou no index do regime. Jornais, revistas, teatros (como o Teatro Nacional Judeu) acabaram sendo fechados e vários de seus diretores presos, processados e até executados. Cresceu a propaganda e a perseguição aos supostos espiões titoista e sionistas. O Marechal Tito, líder da Iugoslávia, havia acabado de romper com Stalin. 
Na noite de 12 para 13 de agosto de 1952, 15 judeus soviéticos, incluindo os mais proeminentes escritores, poetas, e artistas de língua iídiche foram julgados e condenados à morte, acusados de traição, espionagem e nacionalismo burguês. Muitos deles haviam tido participação ativa no Comitê Antifascista Judaico. A imprensa soviética não deu nenhum destaque ao fato. 
Logo em seguida abriu-se um novo processo, desta vez com grande estardalhaço. Era o dos “assassinos de bata branca”. Os médicos do Kremlin, grande parte judeus, foram acusados injustamente de terem matado Jdanov e de prepararem assassinatos de outras lideranças militares e políticas, inclusive Stalin. Como no caso anterior, foram acusados de serem agentes do sionismo. Todos foram absolvidos poucos meses depois, logo após a morte de Stalin em março de 1953. Não deixa de ser paradoxal que um “antissemita raivoso” tenha deixado os cuidados de sua saúde (e de seus colaboradores) nas mãos de médicos judeus e a segurança do Estado sob o comando de Béria, também judeu e seu provável sucessor. Naqueles anos havia 20 mil docentes universitários judeus, um número relativamente alto.
Durante a Guerra Fria também ocorreram processos suspeitos nas chamadas Democracias Populares. O caso mais rumoroso foi contra Rudolf Slansky, secretário geral do PC na Tchecoslováquia, ocorrido em 1952, pois dos 13 acusados 10 eram judeus. Aparece com força a acusação de espionagem sionista. A quase totalidade deles foi considerada culpada e executada. O caso Slansky ocorreu justamente no período entre os processos contra os intelectuais/artistas e o dos médicos do Kremlin. Nos três casos os judeus eram maioria entre os acusados. A imprensa comunista – como Stalin havia dito durante o processo de Moscou – afirmava categoricamente que eles haviam sido processados não por serem judeus e sim espiões a serviço dos diversos imperialismos. Mas, nesses últimos casos, o fato de serem judeus pesou na sentença.
Apesar das críticas à URSS – acusada de antissemitismo - quando Stalin morreu houve uma grande comoção entre os judeus do mundo todo, inclusive em Israel. Ao ser anunciada a doença fatal do líder soviético, o rabino da Sinagoga de Moscou realizou um culto especial e pediu jejum e orações para que ele pudesse se recuperar. Todos sabiam que, apesar dos polêmicos processos contra os intelectuais e dirigentes de origem judia, os comunistas soviéticos haviam dado grande – diria a maior - contribuição à salvação dos judeus na Europa. 
 *Augusto C. Buonicore é historiador e diretor de publicações da Fundação Maurício Grabois. Autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros; Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas; e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Fundação Maurício Grabois e Editora Anita Garibaldi.
Bibliografia
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Privatização das penitenciárias: precarização ou solução?

privatização das penitenciárias

Este artigo traz como tema de abordagem as privatizações das penitenciárias. A pretensão é realizar uma análise interdisciplinar entre essa temática com os demais ramos, como o Direito Administrativo e o Direito Constitucional, posto envolver direitos de maior relevância, tais como os fundamentais previsto na Carta Magna Brasileira, mais especificamente o artigo 1°, inciso III, que trata da dignidade da pessoa humana. 
É necessário primeiro considerar a atual conjuntura das penitenciárias brasileiras, tendo em vista que, mesmo com as sucessivas gestões, sejam elas federais ou estaduais, tem se mostrado, dia após dia, inábil a resolver a crise carcerária na qual o país está imerso.
Diante de tal cenário, o Estado deve privatizar suas penitenciárias, de forma a garantir os direitos dos indivíduos que estão sob sua tutela ou tal medida irá precarizar ainda mais a realidade em que vivem? É importante ressaltar que esse não é um fenômeno exclusivo do Brasil, uma vez que se trata de problema de amplitudes globais, o qual quase todos os países estão enfrentando.
Em levantamento feito pelo Departamento Penitenciário Nacional (Infopen, 2014), tomou-se conhecimento do novo recorde brasileiro no que diz respeito à população carcerária. Em números absolutos, o Brasil tem a quarta maior população carcerária, isto é, 607.731 pessoas privadas de liberdade em estabelecimentos prisionais, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (2.228,424), China (1.657,812) e Rússia (673.818).
Mas há apenas 376.669 vagas, totalizando uma carência de 231.062 vagas, que proporciona uma espantosa taxa de ocupação de 161%. Em sentido contrário aos outros países que estão em posições anteriores no ranking das maiores populações criminais, ou seja, entre 2008 a 2014, a população carcerária brasileira elevou em 33%, ao mesmo tempo que a dos Estados Unidos, China e Rússia diminuiu em 8%, 9% e 24%, na devida ordem, transformando-nos em líderes mundiais em encarceramento.
Diversos estudiosos atentam para os problemas e para as causas da atual condição dos presídios. Dentre eles, Cezar Roberto Bittencourt (2004 apud NNES, 2012, p. 314), aponta que as maiores deficiências do sistema penitenciário são, em ordem:
  • déficit orçamentária;
  • desqualificação profissional do pessoal técnico;
  • ociosidade;
  • superpopulação;
  • deficiência da alimentação;
  • precariedade das instalações; e
  • rebeliões.
Em decorrência disso, os internos, na ausência do Estado garantindo a sua ressocialização gradativa, passam a conviver sob a “Lei da Selva”, subordinando-se a código de condutas próprios, em que não prevalece o Estado de Direito. Trata-se de uma comunidade isolada do restante da sociedade brasileira.
Essas pessoas, quando não mais pertencem ao sistema penitenciário, na maior parte das vezes já não são capazes de viver de acordo com as normas externas, de maneira que regressam, cedo ou tarde, ao cárcere. Conforme ilustra Alberto da Costa Ribeiro Peixoto, constata-se a negação de direitos e interesses legítimos de indivíduos dominados perpetrados pelo Estado, dominante, valendo-se de sua soberania (2012, p. 62. n.r, 174).
Segundo levantamento feito e publicado no sitio eletrônico do jornal G1, em 26 de abril de 2019, que um ano após ligeira queda, prisões estão quase 70% acima da capacidade e o percentual de detentos sem julgamentos é maior (35, 9% do total).Desde o último levantamento, publicado em 26 de fevereiro de 2018, foram acrescidas ao sistema 8,651 vagas, número insuficiente para acomodar o total de presos, que cresceu 2,6 % em um ano, com 17,801 internos a mais.
Observa-se que as prisões não promovem a reintegração, mas sim degradam, por meio de um ambiente carcerário atroz e anti-humano, que seleciona especificamente seus clientes: os marginalizados da sociedade.
Sendo assim, em consequência não só da pena privativa de liberdade, mas também do Estado Penal no Brasil em clara dissonância com o Estado Democrático de Direito, situada em um contexto de uma sociedade que incorporou a cultura do medo e o populismo penal, é que surgem diversas alternativas supostamente salvadoras, dentre elas, a privatização das penitenciárias. 
Conforme informações do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias elaborado pelo Infopen, em 2014 existiam cerca de 34 prisões privatizadas no país, sob o regime de cogestão e no regime de parceria público-privada, compartilhada entre os estados de Alagoas, Amazonas, Bahia, Espirito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Rio de Janeiro, Rondônia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins.
Demonstra-se, no Brasil, após a analise dos números, a ausência de efetividade na diminuição dos custos em relação a tal medida. Conforme se observa a partir do relatório “Prisões Privatizadas no Brasil em Debate”, realizado pela Pastoral Carcerária, é errônea a assertiva da diminuição de custos quando se opta pela via privada.
Sendo assim, a proposta de privatização veio para dar uma solução a esse cenário. Todavia, evidenciou-se que existem elementos suficientes para contrapor a tal via. Em nosso entendimento, a privatização total é ilegal e inconstitucional, tendo em vista que a execução da pena é função pública e que lesionaria os direitos e garantias fundamentais dos presos, resultando uma exploração desproporcional do trabalho do encarcerado. Além disso, os argumentos de menores custos, de acordo com os dados que foram apresentados, são falaciosos.

REFERÊNCIAS
D’URSO, Luiz Flávio Borges. Direito Criminal na atualidade. São Paulo: Atlas, 1999.
GOMES, Hellen da Cunha. REFLEXÕES ACERCA DA PRIVATIZAÇÃO DE ESTABELECIMENTOS PENAIS COMO POSSÍVEL ALTERNATIVA À CRISE DO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO. 2014. 57 f. Monográfia – Curso de Direito, Universidade Federal de Juiz de Fora, 2014. Cap 4.
GONÇALVES, Rachel Scalon Carreiro Nolasco. PRIVATIZAÇÃO DE PRESÍDIOS: EXPERIÊNCIA AMPLAMENTE DIFUNDIDA E MINIMAMENTE DISCUTIDA: Debates acerca de sua aplicabilidade no Brasil. 2013. 77 f. Monografia (Especialização) – Curso de Direito, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013. Cap. 7.
Via Canal Ciências Criminais

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Psicanálise das massas e líderes perversos

psicanálise das massas


O fato de Donald Trump ser uma pessoa desagradável em seu discurso e em suas atitudes foi o que mobilizou a associação de psiquiatria norte-americana a emitir uma carta aberta com considerações sobre seu perfil, que demonstra
uma inabilidade em tolerar diferentes pontos de vista do que o dele […] e de suas palavras e ações sugerirem uma profunda inabilidade na capacidade de empatia…
E isso é só um exemplo, entre outros quesitos, do que a carta alerta para seu perfil, que seria incompatível para o cargo do qual ocupa. Líder da maior potência do mundo… Mas, quando pensamos nisso, como podemos compreender esse fenômeno?
O que pode ser observado, relativamente, está ligado ao encantamento que ele promove nas massas, visto que ele foi eleito. Quando as pessoas estão com raiva, sentindo-se insatisfeitas, passam a dar muita importância para seus próprios sentimentos, e, quando elas percebem em Donald Trump esses sentimentos refletidos de volta para elas, em sua linguagem rude, isso, de certa forma, permite que elas também sejam rudes e cruéis.
Mas este não é um fato isolado e também nenhuma novidade, pois não é incomum que malucos, ditadores e inescrupulosos conquistem o poder. Basta olhar ao longo da história humana. Mas que mecanismo psicológico estaria por trás disso?
Como seria impossível esses líderes perversos ganharem uma eleição com base em argumentos lógicos e racionais, sua propaganda e discurso mobilizam reações emocionais, irracionais e primitivas. O ódio como um subproduto dessas reações acaba se tornando um veículo de manipulação de massas. Tal quadro de referência foi fornecido pelo próprio Freud em seu livro Psicologia das massas e análise do eu (1922).
Não é exagero dizer que Freud previu tais acontecimentos através da análise de tais mecanismos em termos psicológicos. Por isso, pode-se notar que geralmente homens primitivos emergem das massas, o que poderíamos supor que o discurso do ódio nada mais é do que a evocação do primitivo em cada um de nós, uma retomada de forças inconscientes presentes no ser humano e no seu processo civilizatório.
Assim, a irracionalidade é despertada pelo discurso de ódio do líder em seu seguidor, porém, do ponto de vista do líder, suas intenções são bastante racionais, uma vez que seu interesse é justamente despertar nos seus seguidores seus impulsos mais arcaicos para assim se identificarem com um líder forte e autoritário.
Sua racionalidade está no fato de utilizar de um discurso como uma forma de manipulação, demonstrando assim sua premeditação e intencionalidade, domínios esses da racionalidade e não da irracionalidade. Portanto, tais líderes, possuem o pleno entendimento dos designos malignos e sádicos de suas atitudes de manipulação e destruição.
Quem não os possuem são as massas, que acabam por se tornarem vítimas de tais ações, e, ao mesmo tempo, sem terem consciência de tal manipulação, tornam-se o tipo de vítima colaborativa. E é isso que justifica o discurso de ódio ser reproduzido por parte dos seguidores do líder, que não o abandonam, não mudam de opinião e ainda agridem quem pensam diferente.
Afinal, como não utilizam sua racionalidade, não podem avaliar tais atitudes que certamente permitiriam uma mudança de opinião. A ideia de um líder forte também ressalta o narcisismo de seus seguidores, pois existe um fenômeno de identificação. Assim, psicologicamente, a imagem do líder passa a ser de um todo-poderoso, assemelhando-se à forma como uma criança identifica psicologicamente seu pai, como um superprotetor e superpoderoso.
O endeusamento do líder reforça o narcisismo de seus seguidores, que, agora, engendrados nesse processo, estão aprisionados psicologicamente em uma relação abusiva da qual não conseguem sair. Então, o líder passa a ser venerado como um deus, um super-homem ou um messias.
Ao mesmo tempo que se mostra como um super-homem, o líder também aparece como uma pessoa comum, uma pessoa do povo, simples e humilde, e isso foi o que todos demagogos fizeram ao longo da história. Uma mistura de super-homem com um homem comum, um deus que é humano. O ganho narcisista é obvio para seus submissos, que se sentem pertencentes ao melhor grupo, ao grupo dos fortes e dos vencedores.
O mesmo fenômeno também ocorre em grupos religiosos, que também foram objeto de investigação de Freud. Uma religião, que mesmo se qualifica como religião do amor, deve ser dura e desamorosa para com aqueles que não pertencem a ela, pois só aquele grupo seleto é que vai para o céu.
Dentre todos esses fatores, podemos identificar que estamos inseridos em grupos e/ou alguma massa, e seria imprescindível identificar em qual massa estaríamos imiscuídos. Então, libertar-se dela só pode ser atingido através de um processo de uma reflexão honesta de si mesmo, através do autoconhecimento. A psicanálise, ao favorecer o livre pensar, parece ser uma arma poderosa contra tudo aquilo que nos desumaniza e escraviza nosso pensamento.

* Via Canal Ciências Criminais




















































quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O Cristianismo e o comunismo primitivo

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“Hoje sois vós, com as vossas mentiras e ensinamentos, que sois pagãos, e somos nós quem traz aos pobres, aos explorados, as novas da fraternidade e da igualdade. Somos nós quem está a marchar para a conquista do mundo como fez aquele que outrora proclamou que é mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que a um rico entrar no reino do céu”. Rosa de Luxemburgo, revolucionária comunista alemã.
“Se quiserem fazer uma ideia das primeiras comunidades cristãs, observem uma seção local da Associação Internacional de Trabalhadores”. Ernest Renan, historiador alemão do século XIX autor de A vida de Jesus e um dos principais estudiosos do cristianismo.
“E perguntou-lhe (a Jesus) um aristocrata. Bom, mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? (...) Ainda te falta uma coisa. Vende o que tens, dá aos pobres e terás tesouros no céu; então, vem e segue-me. Então, ao ouvi-lo, ficou muito triste porque era muito rico”. Novo Testamento.  
Um cristianismo proletário e comunista
Um anticomunismo atávico ganhou nova força no interior das cúpulas de algumas igrejas ditas cristãs. Nesse processo não se incluem apenas os pastores pentecostais, mas também setores do clero católico. Estranhamente, apareceu até uma exótica “teologia da prosperidade”, cujo espírito é: enriquecei-vos (e não no sentido espiritual, como prevê os Evangelhos). O objetivo das preces é nos tornar mais prósperos materialmente. Ganhar na loteria passou a ser a maior graça possível a ser alcançada. Igualmente há uma perigosa aproximação desse clero reacionário com políticos e governos que negam os direitos humanos e até admitem práticas abomináveis, como a tortura e genocídio. Algo que teria sido veementemente condenado pelos primeiros cristãos.  

Tela de Cândido Portinari
De fato, o processo de enfraquecimento do comunismo original junto às cúpulas das igrejas cristãs é antigo e não se deu sem contradições. Ele teve como um dos marcos fundamentais a fusão Igreja-Estado durante o reinado de Constantino, que viveu entre 272-337. Até meados do século III o comunismo era uma das bases ideológicas do cristianismo. Os exemplos se multiplicam nos próprios textos do Novo Testamento e dos primeiros teólogos cristãos. E estão presentes em escritos pagãos do Império Romano. O historiador alemão Max Beer no seu clássico História do socialismo e das lutas sociais escreveu: “Nos anos seguintes ao martírio de Jesus, as primeiras comunidades, compostas quase que exclusivamente de judeus proletários, viveram ou de acordo com o sistema comunista ou no espírito do ideal comunista”. 
Aquele comunismo dos primeiros cristãos não é idêntico ao comunismo moderno, criação do século XIX, contudo tem algumas similitudes. Não sem razão, os fundadores do “socialismo científico” (Marx e Engels) e alguns de seus primeiros ideólogos/intelectuais, como Karl Kautsky e Rosa de Luxemburgo, se interessavam pela história desses primeiros cristãos e buscaram construir pontes entre ela e o socialismo do seu tempo. Vejamos o que diz a Apresentação ao livro A luta de classes na França de K. Marx feita por Engels: “no Império Romano atuava um perigoso partido subversivo. Esse partido minava a religião e todos os fundamentos do Estado; negava sem rodeios que a vontade do imperador fosse a lei suprema; era um partido sem pátria, internacional (...). Este partido subversivo, que era conhecido pelo nome de cristãos, tinha também uma forte representação no exército; legiões inteiras eram cristãs (...). O imperador Diocleciano já não podia assistir tranquilamente ao minar da ordem (...). Então, emitiu uma lei contra os socialistas, queria dizer contra os cristãos (...). Foram proibidas as reuniões desses subversivos, os seus locais de reunião encerrados ou demolidos, os símbolos cristãos, cruzes, proibidos, como na Saxônia são os lenços vermelhos (dos socialistas). Mas estas leis de exceção não tiveram êxito (...). Este (Imperador) vingou-se com a grande perseguição aos cristãos no ano 303 da nossa era (...). E foi tão ‘eficaz’ que dezessete anos mais tarde (...) o autocrata de todo o Império Romano, Constantino, (...) proclamou o cristianismo religião de Estado”.
Dado a importância do tema, Engels retomou o tema num pequeno ensaio dedicado ao estudo do cristianismo primitivo. Assim iniciou sua obra: “A história do cristianismo primitivo oferece curiosos pontos de contato com o movimento operário moderno. Como este, o cristianismo era, na origem, o movimento dos oprimidos: apareceu primeiro como a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens privados de direitos, dos povos subjugados ou dispersos por Roma. Os dois, o cristianismo como o socialismo operário, pregam uma libertação próxima da servidão e da miséria (...). Os dois são perseguidos e encurralados, os seus aderentes são proscritos e submetidos a leis de exceção (...). E, apesar de todas as perseguições, um e outro abrem caminho vitoriosamente. Três séculos depois do seu nascimento, o cristianismo é reconhecido como a religião do Estado e do Império romano: em menos de sessenta anos, o socialismo conquistou uma posição tal que o seu triunfo definitivo está absolutamente assegurado”. Essas seriam comprovações de que, como o cristianismo, o socialismo poderia ser vitorioso apesar da repressão e das calúnias contra os quais recaiam. Os grandes caluniadores eram justamente os membros do alto clero.
Rosa de Luxemburgo e o clero reacionário

Primeiros Cristão
Rosa de Luxemburgo, da mesma forma, escreveu sobre o assunto, O socialismo e as Igrejas, visando ganhar para sua causa os operários católicos poloneses e isolar o clero ultrarreacionário: “Os social-democratas propõem-se a pôr fim à exploração do povo pelos ricos. Pensar-se-ia que os servidores da igreja deveriam ter sido os primeiros a desempenhar-se desta tarefa (...). Não é Jesus Cristo quem ensina que ‘é mais fácil um camelo passar pelo furo de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus’? (...) Se o clero realmente deseja que o princípio ‘Ama o teu próximo como a ti mesmo’ seja aplicado na vida real, por que é que não recebe bem e com entusiasmo a propaganda dos social-democratas? Os social-democratas tentam, através de uma luta desesperada e da educação e organização do povo, subtraí-lo à opressão em que se encontra e oferecer-lhe um melhor futuro para os filhos. Todos devem admitir que, neste ponto, o clero deveria abençoar os social-democratas, pois não é ao clero que eles servem, e sim a Jesus Cristo, que diz que ‘o que fizeres aos pobres é a mim que o fazeis’?”. 
Continua Rosa: “Contudo vemos o clero, por um lado, excomungando e perseguindo os social-democratas (...). Assim, o clero, que se torna o porta-voz dos ricos, o defensor da exploração e opressão, põe-se em flagrante contradição com a doutrina cristã (...). Os padres de hoje, que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros apóstolos cristãos, pois estes não passavam de ardentes comunistas (...). Se Cristo aparecesse na terra, atacaria com certeza os padres, os bispos e arcebispos que defendem os ricos e vivem explorando os desafortunados, como outrora atacou os comerciantes que expulsou do templo para que a presença ignóbil deles não maculasse a Casa de Deus (...). Hoje sois vós, com as vossas mentiras e ensinamentos, que sois pagãos, e somos nós quem traz aos pobres, aos explorados, as novas da fraternidade e da igualdade. Somos nós quem está a marchar para a conquista do mundo como fez aquele que outrora proclamou que é mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que a um rico entrar no reino do céu”. 
Rosa cita o historiador alemão Vogel que ainda em 1780 constatou: “De acordo com a regra, todo cristão tinha direito à propriedade de todos os membros da comunidade, caso quisesse, podia pedir que os membros mais ricos dividissem a sua fortuna com ele, de acordo com as suas necessidades. Todo o cristão podia fazer uso da propriedade dos seus irmãos. Assim, os cristãos que não tinham casa podiam exigir do que tinha duas ou três que os recebesse; o proprietário conservava para si próprio apenas a sua própria casa. Mas por causa da comunidade de gozo dos bens, tinha de dar-se habitação àquele que a não tinha’”. Entre os primeiros cristãos, agora segue a própria autora, “o dinheiro era colocado em caixa comum e um membro da sociedade, especialmente escolhido para esse fim, dividia a fortuna coletiva entre todos. Mas isto não era tudo. Entre os primeiros cristãos o comunismo foi levado tão longe que eles tomavam as suas refeições em comum. A sua vida familiar era, portanto, abolida; todas as famílias cristãs, numa sociedade, viviam juntas, como uma única grande família (...) Deste modo, os cristãos do I e II século foram fervorosos adeptos do comunismo”. Por isso, todos se tratavam de irmãos e irmãs.  
Essa situação não poderia durar muito tempo: “Ao princípio, quando os seguidores do novo Salvador constituíam um pequeno grupo na sociedade romana, a divisão do pecúlio comum, as refeições em comum e o viver debaixo do mesmo teto, eram praticáveis. Mas quando o número de cristãos se espalhou pelo território do Império, esta vida comunitária dos seus partidários tornou-se mais difícil. Em breve desapareceu o costume das refeições comuns e a divisão dos bens tomou um novo aspecto. Os cristãos não mais viveram como uma família; cada um tomou cuidado da sua própria propriedade e já não ofereciam o total dos seus bens à comunidade, mas apenas o supérfluo. As ofertas dos mais ricos dentre eles ao organismo geral, perdendo o seu caráter de participação numa vida comum, em breve se transformaram em simples esmolas, desde então os cristãos ricos deixaram de fazer caso da propriedade comum e passaram pôr ao serviço dos outros apenas uma parte do que tinham, parte que podia ser maior ou menor, consoante a boa vontade do doador. Assim, no coração do comunismo cristão, apareceu a diferença análoga à que reinava no Império Romano e contra a qual os primeiros cristãos tinham combatido. Em breve foram apenas os cristãos pobres – os proletários – que tomaram parte em refeições comuns”, afirmou Rosa. 
Kautsky e o cristianismo primitivo
Um dos mais importantes estudos sobre o cristianismo primitivo foi redigido por Karl Kautsky, o principal ideólogo da social-democracia pós-Engels. Para ele “a comunidade cristã abarcava em seus primórdios, quase que exclusivamente elementos proletários e era uma organização proletária. E isto permaneceu ainda durante muito tempo após sua criação”. Cita então Friedlander – autor de Vida e costumes romanos: “é certo que antes da metade ou do final do século II, só tinham uns quantos partidários isolados entre as classes superiores (...). O pobre e o humilde, dizia Lactâncio, estão mais dispostos a crer do que o rico, cuja hostilidade, sem dúvida alguma, surgiu em muitos aspectos contra as tendências socialistas do cristianismo”. Engels, por sua vez, havia escrito: “Os gentios diziam, desdenhosamente, que os cristãos só podiam converter os ingênuos, escravos, mulheres e crianças; que os cristãos eram rudes, sem educação e rústicos; que os membros de suas comunidades eram, principalmente, pessoas sem importância”. 
Kautsky constata que: “há (entre os primeiros cristãos) um selvagem ódio de classes contra o rico. Percebe-se essa condição no Evangelho de São Lucas (...). O rico é condenado pela única razão de ser rico. (...) O mesmo Evangelho faz jesus dizer: ‘Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que tem riqueza! Porque é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no reino de Deus’”. Ou seja, um rico entrar no reino dos Céus era quase uma impossibilidade para aqueles cristãos originais. Um dos primeiros grandes apologistas cristãos Tertuliano reafirmou: “Deus despreza os ricos e protege os pobres. O reinado de Deus foi feito para os pobres e não para os ricos”. 
Nos Atos dos apóstolos, descrevendo as primeiras comunidades, lemos: “E preservaram na doutrina dos apóstolo, e na comunidade e na partilha do pão e das orações (...). E todos os que acreditavam estavam juntos e tinham todas as coisas em comum; e vendiam suas propriedades e seus bens e repartiram-nas entre todos” (II,42,44,45) “e ninguém dizia ser seu algo que possuía, mas todas coisas eram comuns. Não havia nenhum necessitado entre eles: porque todos que possuíam terras e casas, vendiam-nas e traziam os valores da venda e os punham aos pés dos apóstolos e era repetido a cada um segundo tinha necessidade”. (IV. 32, 34,35). Jesus chegou a afirmar “E qualquer um de vós que não renuncia a todas as coisas que possui, não pode ser meu discípulo”. Noutra passagem está dito: “E perguntou-lhe (a Jesus) um aristocrata. Bom, mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna? (...) Ainda te falta uma coisa. Vende o que tens, dá aos pobres e terás tesouros no céu; então, vem e segue-me. Então, ao ouvi-lo, ficou muito triste porque era muito rico”.  
“Segundo São João, os doze apóstolos possuíam uma caixa comum enquanto Jesus ainda vivia. Mas Jesus também exige que todos os outros discípulos entreguem suas propriedades”. Assim, o cristianismo primitivo: “era um vigoroso comunismo, embora confuso, que prevalecia na comunidade em seus primórdios, uma condenação de toda propriedade privada, um impulso por uma ordem social nova e melhor, em que todas as diferenças de classe desaparecerem com a divisão da propriedade (...). A primeira comunidade comunista do Messias formou-se em Jerusalém (...). Mas as comunidades logo surgiram em outras partes que tinham um proletariado judaico.”  Logo surgiram entre os não judeus. 
O comunismo dos primeiros cristãos foi sofrendo várias modificações com o passar dos anos, mesmo no período anterior a sua transformação em religião oficial do Estado sob Constantino. A primeira delas foi o próprio aumento dos adeptos e das comunidades, distribuídas em várias regiões. A segunda foi o ingresso gradual de setores sociais mais privilegiados. “Na medida que aumentava a influência das classes educadas sobre o cristianismo, este se distancia cada vez mais do comunismo”, diz Kautsky. 
Ainda segundo esse autor, originalmente, “a comunidade cristã deve ter sido, sobretudo, uma organização de luta (...). Isso correspondia plenamente à situação histórica da coletividade judaica do seu tempo”, ocupada e oprimida pelos romanos. “Seria totalmente incrível se precisamente uma seita proletária houvesse permanecido intocada pela atmosfera geral revolucionária”. Naquela época eram comuns as revoltas individuais e coletivas contra a dominação romana. “Mas a situação mudou após a destruição de Jerusalém. Os elementos que haviam dado a comunidade messiânica seu caráter rebelde foram derrotados. E a comunidade do Messias tornou-se cada vez mais uma comunidade antijudaica, dentro de um proletariado não judaico, que não tinha capacidade nem desejo de lutar (...). O reino de Deus que deveria descer do Céu para Terra, transferiu-se cada vez mais para o Céu (...). Na medida em que a esperança messiânica no futuro assumiu cada vez mais uma forma celestial, tornou-se politicamente conservadora ou indiferente”. É claro que esse processo não se deu da noite para o dia e sem inúmeras contradições.
Começou-se a pregar o respeito cego às autoridades, sejam quais fossem. Lemos na Epístola de São Paulo aos Romanos: “Todo homem se submeta às autoridades superiores, pois não há autoridade senão de Deus, onde ela há, por Deus é ordenada. Assim, quem se opõe à autoridade resiste à ordem de Deus; e os que resistem recebem a condenação ao inferno”. Muitos afirmam que esta formulação subserviente ao poder seria uma maneira de proteger a pequena e fragilizada comunidade cristã das autoridades imperiais romanas. O problema é que muitas das práticas pagãs obrigatórias, como a veneração ao Imperador e a participação nos cultos do Estado, não eram obedecidas a contento pelos cristãos. Isso levava a uma eterna desconfiança sobre eles, por mais que buscassem demonstrar respeito aos governantes de plantão. Isso explica, em parte, as várias perseguições sofridas até o século IV.   
A mesma concessão foi feita em relação à escravidão, que os primeiros cristãos não viam com bons olhos: “O autor da Epístola de Paulo aos Colossenses (...) ordena aos escravos o seguinte: ‘servos, obedecei em tudo os vossos senhores não servindo apenas sob vigilância (...), mas com simplicidade de coração, temendo ao Senhor’. O autor da Primeira Epístola de Pedro – provavelmente escrita no tempo de Trajano – usa termos ainda mais claros: ‘Servos, sede submisso com todo temor a vossos senhores; não somente os bons e humanos, mas também os indignos’”. Isso repete-se na Primeira Epístola de Paulo a Timóteo: “E os que tem senhores fiéis (cristãos) não os menosprezem por serem irmãos; sirvam-nos com ainda melhor vontade, pois são fiéis e participantes das refeições comuns e se dedicam às boas ações”. Naquele tempo escravos e senhores chamavam-se de irmãos e compartilhavam conjuntamente da ceia cerimonial. O cristianismo era uma religião universal que buscava incluir a todos, independentemente da nacionalidade, incluindo os escravos. No entanto, não advogou a abolição da escravidão, mesmo nos seus primeiros anos. O escravismo era o Modo de Produção da época, a base econômica do Império romano. O abolicionismo, como movimento, seria algo extremamente revolucionário e perigoso.    
“Mas, para fazer com que os ricos se sentissem bem dentro da comunidade, o caráter dele tinha de mudar: ódio de classe aos ricos tinha que ser abandonado. O espirito proletário combativo da comunidade foi prejudicado por esse esforço de atrair o rico e fazer-lhe concessões, como sabemos a Epístola de Tiago às 12 tribos da diáspora (...) admoesta os membros de algumas igrejas: ‘Porque se em nossa comunidade entra um homem com anel de ouro e trajes luxuosos e também entra um pobre com roupas modestas e tratardes com deferência ao que traz as roupas preciosas e lhe disserdes: Senta-se aqui em bom lugar. E disserdes aos pobres: Fica em pé, ou senta-se abaixo do estrado dos meus pés (...). Se fazeis essa diferença entre pessoas, cometeis pecado’. Conclui Kautsky: “Na teoria, o comunismo não foi largado; e, na prática, unicamente o rigor de sua aplicação parecia ter se suavizado (...). Apesar do comunismo haver se enfraquecido muito, as refeições em comum continuaram ainda a ser vínculo firme que unia todos os camaradas”. Alguns séculos depois isso desapareceria. Das refeições comunitárias cotidianas participavam apenas os pobres. Os ricos compartilhavam a comunhão durante a missa em lugares especiais. Prática consolidada na “Idade Média”. 
Heranças do comunismo cristão
Segundo Iakov Lentman, “seria, no entanto, um erro pensar que já na primeira metade do século II o cristianismo era a religião das classes dominantes de Roma.  O reconhecimento da escravatura e o apelo à submissão dirigido aos escravos testemunham antes uma manifestação de fidelidade ao Império, e não o aparecimento nas comunidades cristãs de um contingente influente de possuidores de escravos (...). A composição social das comunidades era ainda bastante homogênea e incluía, para além dos escravos, artesãos e trabalhadores das cidades. Não é por acaso que no segundo grupo de Epístola paulinas se encontram frequentemente apelos a ‘trabalhar com as próprias mãos’ (I Tessalonicenses, IV, 11) (...). O célebre preceito: ‘Se alguém não quiser trabalhar, que não coma também’ (II Tessalonicense, III, 10) só pode evidentemente surgir num meio laborioso”. E continua: “mas, é visível que a partir da segunda metade do século II as camadas dominantes da população começam já a desempenhar um papel decisivo no seio das comunidades cristãs”.  
Gerard Walter, por sua vez, afirma: “Teoricamente, o princípio da comunidade dos bens, tal como a abolição de toda a propriedade privada, permanecia inscrito em lugar de honra no programa da sociedade cristã primitiva. Na prática, depressa se havia regressado às formas econômicas da sociedade burguesa pagã da época. De compromisso em compromisso, de concessão em concessão, no espaço de vinte anos os preceitos igualitários ditados imperativamente pelos primeiros fundadores do cristianismo (...) tinham-se pouco a pouco transformado numa espécie de recomendação platônica que é para recordarmos, mas cuja realização integral era antecipadamente tida como impossível. (...) Mas, apesar de toda fragilidade desta tentativa (...) o simples fato da existência nos primeiros anos da era cristã de uma pequena sociedade de homens que se esforçaram por fazer durar tanto tempo quanto lhes foi possível o regime comunista no seu meio deixou um traço profundo no espírito das gerações que se seguiram (...) tiveram uma repercussão imensa através de séculos e séculos”.  
Mesmo depois de um certo acomodamento do cristianismo e o seu afastamento do comunismo, vários “padres da Igreja” continuaram denunciando o crescimento das desigualdades sociais na comunidade cristã, o privilégio dado aos mais abastados e exortando a se voltarem ao espírito do comunismo dos primeiros Apóstolos. São Basílio, ainda no Século IV, dirigindo-se aos ricos afirmou: "Miseráveis, como vos ireis justificar diante do Juiz do Céu? Vós dizeis-me: ‘Qual é a nossa falta, quando guardamos o que nos pertence’? eu pergunto-vos: ‘Como é que arranjastes isso a que chamais de vossa propriedade? Como é que os possuidores se tornam ricos, senão tomando posse das coisas que pertence a todos? Se todos tomassem apenas o que estritamente necessitam, deixando o resto aos outros, não haveria nem ricos nem pobres". 
São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, também pregou à volta aos Apóstolos: "E havia uma grande caridade entre eles (os Apóstolos); ninguém era pobre entre eles. Ninguém considerava como seu o que lhe pertencia, todas as suas riquezas estavam em comum (...) uma caridade existia em todos eles. Esta caridade, consistia em que não havia pobre entre eles, de tal modo que os que tinham bens apressavam-se a desprender-se deles. Não dividiam as suas fortunas em duas partes, dando uma e guardando a outra; davam o que tinham. Assim não havia desigualdade entre eles. Todos viviam em grande abundância. Tudo se fazia com o maior respeito”. Em outro momento afirmou: “Ninguém pode enriquecer honestamente. Mas, poderão objetar-me, se um homem herdar riquezas de seus pais? Pois bem, ele herdará riquezas adquiridas desonestamente”. Invertendo a lógica liberal, Santo Ambrósio afirmou: “O direito comunista foi criado pela natureza. O direito à propriedade privada foi instituído pela violência”. Assim, a propriedade privada não é um direito natural. 
Kautsky concluiu: “Se o comunismo foi admitido oficialmente como exigência fundamental da comunidade, certamente semelhante reconhecimento só foi feito porque era impossível negá-lo, porquanto a tradição nesse ponto tinha raízes demasiado profundas e era amplamente conhecida”. Durante a chamada Idade Média elementos desse comunismo primitivo renasceriam em várias comunidades cristãs (católicas e protestantes), em grande parte, consideradas heréticas e duramente perseguidas, a exemplo de Thomas Munzer, os cátaros, os hussitas, os waldenses e os diggers na Revolução Inglesa. Mais recentemente esse espírito renasceu na Teologia da Libertação, já sob influência do marxismo. Como ocorreu com aquelas correntes que buscaram reaproximar o cristianismo e o socialismo (ou comunitarismo), ela foi perseguida e calada pela alta hierarquia da Igreja Católica. O mesmo fenômeno ocorreu em relação às igrejas protestantes. Contudo, não há como impedir que os interesses e a luta dos trabalhadores empobrecidos – a velha e boa luta de classes – emerja no interior dessas igrejas que têm bases populares, ainda que colateralmente. 
De Jesus Cristo aos falsos messias
Segundo os Evangelhos, Cristo nasceu numa manjedoura, dentro de um estábulo, e era filho de carpinteiro, possivelmente profissão exercida por ele durante sua infância e adolescência, antes de iniciar suas pregações. Portanto, foi um jovem proletário. Sempre viveu entre as pessoas mais humildes, excluídas socialmente: mendigos, leprosos, prostitutas etc. Os seus primeiros seguidores eram simples pescadores. Ele não tinha propriedades pessoais e o mesmo exigia dos seus apóstolos. Não era frequentador de palácios reais, nem tinha convivência íntima com os ricos e poderosos da época. E a pobreza, inclusive, era a condição essencial para participar da sua comunidade. Protegeu a adúltera Maria Madalena quando fanáticos religiosos, seguindo à risca as leis do Templo, queriam apedrejá-la. Disse-lhes: “Quem de vós não tem pecado que atire a primeira pedra”. Hoje vemos pastores apedrejando (ainda que virtualmente) LGBTIs, feministas, petistas, comunistas e membros de religiões afro-brasileiras. Jesus expulsou os mercadores do templo em Jerusalém. Quantos templos não viraram verdadeiros mercados persas, onde os bens religiosos são vendidos e os recursos transformados em novos negócios rendosos? Quantos altos dignitários das igrejas não se enriqueceram às custas dos fiéis e outros meios? 
E, por fim, pelas suas palavras e ações, Jesus foi condenado por dois poderes: o clerical e o imperial. Assim, ele foi o mais famoso preso político da história da humanidade, torturado e executado barbaramente na Cruz, forma mais degradante de morte entre os romanos. Morreu ao lado de dois ladrões e a um deles perdoou e disse que se encontrariam no reino do Céu. Jesus e os primeiros cristãos, decerto, não aceitariam frases bolsonaristas: como “bandido bom é bandido morto”. Tomemos cuidado com esses novos Messias que agora defendem os ricos, disseminam o ódio aos diferentes, a tortura, o armamento geral e até o genocídio.  
*Augusto C. Buonicore é historiador e diretor de publicações da Fundação Maurício Grabois. Autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira: encontros e desencontros; Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas; e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução. Todos publicados pela Fundação Maurício Grabois e Editora Anita Garibaldi.
Bibliografia
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LOWY, Michael. Marxismo e teologia da libertação, Ed. Cortez, SP, 1991
LUXEMBURGO, Rosa. O socialismo e as igrejas: o comunismo dos primeiros cristãos, Ed. Achiamé, RJ, 1981.  
MARX, Karl & ENGELS. Sobre a religião, Ed. 70, Lisboa, 1972
RENAN, Ernest. A vida de Jesus, Ed. Martin Claret, SP, 1995
WALTER, Gérard. A origens do comunismo: judaicas-cristãs-gregas-latinas, edições 70, Lisboa, 1976
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