domingo, 23 de agosto de 2015

Introdução a Revolução Brasileira- Nelson Werneck Sodré

Claro que há sempre um pensamento conservador, alimentado pela classe dominante minoritária, em afanosa busca de eternidade para sua dominação e obrigada a explica-la e a justifica-la. Isto acontece, porque, frenquentemente, as ideias se atrasam em relação a realidade: o conhecimento humano é condicionado pela ordem social e, portanto, entravado quando existem forças que buscam eternizar-se no poder. Conservadores são aqueles que não verificam  quanto o processo histórico avançou objetivamente e quanto os conhecimentos estacionaram em suas situações precedentes. A separação entre a teoria e a prática social leva, finalmente á perda de crédito, apesar do amplo e complexo aparelho de difusão de ideias e de conceitos. Quando a realidade nega objetivamente a validade de conceitos, conhecimentos, ideias e doutrinas, sua vigência está irremediavelmente condenada e não há propaganda capaz de salva-la. Ora a realidade politica do mundo atual nega a eternidade do sistema em que as classes minoritárias se apresentam como povo, e aponta o seu fim  generalizado e próximo. A realidade politica do mundo atual afirma a presença do povo na história, como força motriz do desenvolvimento humano. E isso acontece porque o povo tomou conhecimento e consciência da necessidade de afirmar os seus direitos e defender os seus interesses, atingindo, portanto, á liberdade. Chegou a consciência da necessidade, que define a liberdade, após prolongado processo histórico, mas em condições diversas conforme cada país.

Todo país tem sua estrutura social peculiar, em dada fase histórica: as classes dominantes não são as mesmas em todos os países; as classes que constituem o povo também não são as mesmas. Para se definir o conteúdo do conceito de povo, é preciso encara-lo segundo uma situação histórica determinada e segundo as condições concretas de cada caso, tomando como base a divisão da sociedade em classes. E é preciso não esquecer que o desenvolvimento social e o que conhece, no curso desse desenvolvimento, como revolução, faz com que a composição das classes, e consequentemente a composição do povo, mudem constantemente. Compondo-se de classes, camadas e grupos diferentes, o povo apresenta-contradições internas. Admiti-lo como formando uma unidade é pura ilusão. Distinguir essas diferentes classes, camadas e grupos, e compreender as suas contradições não significa, entretanto, isolar umas das outras, mas situa-las devidamente. O critério justo sobre o conceito de povo ajuda a compreender o papel das massas na história, particularmente na fase atual, e situa devidamente o complexo processo de desenvolvimento por que passam países como o Brasil, em que profundas mudanças estão ocorrendo e em que o mais importante aspecto do que é novo está, precisamente, na presença do povo na vida politica.

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