sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A hora da economia colaborativa

O avanço desta nova economia e a explosão de um novo modo de consumir parecem imparáveis.

Ignacio Ramonet
reprodução










A economia colaborativa é um modelo econômico baseado no intercâmbio e na oferta de bens e serviços mediante o uso de plataformas digitais. Se inspira nas utopias de compartilhamento e em valores não mercantis, como a ajuda mútua ou a convivialidade, e também no espírito de gratuidade, mito fundador da Internet. Sua ideia principal é “o que é meu é seu”, ou seja, compartilhar em vez de possuir. O conceito básico é a troca. Se trata de conectar, pela via digital, aqueles que buscam “algo” com as pessoas que oferecem esse algo. Entre as mais conhecidas empresas que exercitam essa prática estão Netflix, Uber, Airbnb, Blabacar, etc.
 
Trinta anos depois da expansão massiva da web, os hábitos de consumo mudaram. Se impõe agora a ideia de que a opção mais inteligente hoje é usar algo em comum, e não necessariamente comprá-la. Isso significa ir abandonando pouco a pouco uma economia baseada na submissão dos consumidores e no antagonismo ou na competição entre produtores, e passar a um sistema que estimula a colaboração e o intercâmbio entre os usuários de um bem ou de um serviço. Tudo isto planteia uma verdadeira revolução no seio do capitalismo, que está acontecendo bem diante dos nossos olhos, uma nova mutação.
 
Imaginemos que, num domingo, você decide realizar um trabalho caseiro de reparação em sua casa. Precisa fazer alguns furos numa parede, mas não tem uma furadeira. Vai sair de compras num dia de descanso? Difícil. Então… o que fazer? E você mal sabe que a poucos metros de onde você mora há várias pessoas dispostas a lhe ajudar. Não saber disso é como se essas pessoas não existissem. Porém, que tal se existe uma plataforma digital que informe sobre isso? Que diga que ali pertinho vive um sujeito, quase um vizinho, disposto a lhe permitir usar sua furadeira, ou a informar a esse quase vizinho que você, pessoa necessitada de ajuda, está disposta a pagar por essa colaboração?
 
Essa é a base da economia colaborativa e do consumo colaborativo. Você evita gastar dinheiro para comprar uma furadeira, que talvez jamais terá que usar novamente, e um vizinho fatura uma grana que lhe ajuda nas contas do mês. O planeta também ganha, porque não precisa mais fabricar tantas ferramentas individuais que quase não serão usadas – e maltratar o meio ambiente, por consequência –, já que a lógica passa a ser a de compartilhar. Nos Estados Unidos, por exemplo, há cerca de 80 milhões de furadeiras cujo uso médio, em toda a vida útil da ferramenta, é de apenas 13 minutos. Assim, se reduz o consumismo. Se cria um espaço e uma vizinhança mais sustentável, e se evita um desperdício, porque o que se precisa de verdade é do furo, não da furadeira.

É um movimento irresistível, milhares de plataformas digitais de intercâmbio de produtos e serviços estão se expandindo a toda velocidade – um exemplo é o site espanhol consumo colaborativo: http://www.consumocolaborativo.com/. A quantidade de bens e serviços que podem ser criados ou renovados através destas plataformas online, sejam pagos ou gratuitos (como Wikipedia), é literalmente infinita. Só na Espanha, há mais de quatrocentas plataformas que operam em diferentes categorias, e 53% dos espanhóis declaram estar dispostos a compartilhar ou a alugar bens num contexto de consumo colaborativo. 
 
A nível planetário, a economia colaborativa cresce atualmente entre 15% e 17% ao ano. Com alguns exemplos de crescimento absolutamente espetaculares. Por exemplo, o Uber. O aplicativo digital que conecta os passageiros com os motoristas vale hoje 68 bilhões de dólares e opera em 132 países, e conseguiu isso em apenas cinco anos de existência. Por sua parte, Airbnb, a plataforma online de alojamentos para particulares, surgida em 2008, já encontrou cama para mais de 40 milhões de viajantes, e seu valor na bolsa é de mais de 30 bilhões de dólares – sem ser dona de sequer um dos quartos que oferece. Como empresa, o Airbnb já vale mais que o Hilton, o maior grupo hoteleiro do mundo, e também supera a soma dos valores dos outros dois grupos que compõem o pódio do mundo dos grandes hotéis: Hyatt e Marriot.
 
O sucesso destes modelos de economia colaborativa impõe às empresas tradicionais um grande desafio. Na Europa, Uber e Airbnb vem chocando de frente contra o mundo dos táxis e da hotelaria tradicional, respectivamente. São acusados de concorrência desleal. Mas nada poderá parar uma mudança que, em grande medida, é a consequência da crise de 2008 e do empobrecimento geral da sociedade. É um caminho sem retorno. Agora, as pessoas desejam consumir a menor preço, e também dispor de outras fontes de renda inconcebíveis antes da Internet. Com o consumo colaborativo, cresce também o sentimento de ser menos passivo, mais partícipe do jogo. E a possibilidade da reversibilidade, da alternância de funções, poder passar de consumidor a vendedor ou alugar, e vice-versa. O que alguns chamam de “prossumidor”, uma síntese de produtor e consumidor – conceito que aparece pela primeira vez no livro de Alvin Toffler, “A Terceira Onda”.
 
Outra característica fundamental desta nova relação econômica é a desmitificação do sentido de propriedade, e do desejo de posse, que foi simplesmente a base da sociedade de consumo. Adquirir, comprar, ter e possuir eram os verbos que melhor traduziam a ambição essencial de uma época na que a propriedade definia quem a pessoa era. Acumular coisas, moradias, carros, geladeiras, televisores, móveis, roupa, relógios, quadros, telefones, etc… essa era a principal razão da existência. Parecia que, desde a alvorada dos séculos, o sentido materialista era inerente ao ser humano. Recordemos que George W. Bush ganho as eleições presidenciais nos Estados Unidos, em 2004, prometendo uma “sociedade de proprietários”, e repetindo: “quantos más proprietários haja em nosso país, mais vitalidade econômica haverá”.
 
Erro duplo. Primeiro, porque a crise de 2008 destroçou essa ideia de que se havia estimulado as famílias a serem proprietárias, e os bancos, embriagados pela especulação imobiliária, passaram a emprestar dinheiro (as famosas subprimes) sem a mínima precaução. Foi assim que tudo começou. Os bancos hipotecários quebraram, até o próprio Lehman Brothers, um dos estabelecimentos financeiros aparentemente mais sólidos do mundo.
 
O segundo erro foi não perceber que, discretamente, novas iniciativas nascidas na Internet começaram a dinamitar a ordem econômica estabelecida. Por exemplo: Napster, uma plataforma para compartilhar música, que provocaria, em pouco tempo, a devastação de toda a indústria musical, e a quebra dos megagrupos multinacionais que dominavam o setor. O mesmo aconteceria com a imprensa, os operadores turísticos, o setor hoteleiro, o mundo dos livros e da edição, a venda por correspondência, o cinema, a indústria automobilística, o mundo financeiro e até mesmo o do ensino universitário, graças aos MOOC (sigla em inglês dos Cursos Online Abertos Massivos), e que foram usados por cerca de seis milhões de estudantes, nos últimos dois anos.
 
Num momento como o atual, de forte desconfiança sobre o modelo neoliberal e os interesses das elites políticas, midiáticas, financeiras e bancárias, a economia colaborativa oferece também respostas aos cidadãos que buscam um sentido de ética responsável. Exalta valores de ajuda mútua e critérios que, em outros momentos, foram a argamassa das utopias comunitárias e dos idealismos socialistas – mas que hoje são o novo rosto de um capitalismo mutante, que deseja se afastar do selvagismo impiedoso do recente período ultraliberal.
 
Neste amanhecer da economia colaborativa, as perspectivas de sucesso são inéditas, porque, em muitos casos, já não são mais necessárias as indispensáveis alavancas do capital inicial e do apoio de investidores. Basta ver o exemplo do Airbnb, que ganha milhões a partir de uma plataforma de alojamentos que sequer são de sua propriedade.
 
Com respeito ao emprego, numa sociedade caracterizada pela precarização e pelo trabalho instável e mal remunerado, cada cidadão pode agora apostar na disposição de bens e serviços como forma de melhorar sua renda, utilizando seu computador, ou até mesmo um telefone celular, sem depender de um empregador, apenas sendo um intermediário, que compartilha, aluga, empresta ou troca um serviço por outro. Coisa nada nova na economia, existe desde o início do capitalismo, mas agora em maior escala, e com a ajuda de poderosos algoritmos que, quase instantaneamente, calculam ofertas, demandas, fluxos e volumes, novas tecnologias que analisam e definem os ciclos de oferta e procura, dando ao novo sistema uma tremenda eficiência.
 
Por outro lado, num contexto no qual a crise climática se tornou a principal ameaça para a sobrevivência da humanidade, os cidadãos não estão alheios aos perigos ecológicos inerentes do modelo de hiperprodução e hiperconsumo globalizado. Neste sentido, a economia colaborativa também oferece soluções menos agressivas para o planeta.
 
Poderá mudar o mundo? Poderá transformar o capitalismo? Muitos indícios nos conduzem a pensar, junto com el ensaísta estadunidense Jeremy Rifkin (no livro “Sociedade com Custo Marginal Zero”), que estamos assistindo o ocaso da segunda revolução industrial, baseada no uso massivo de energias fósseis e sistemas centralizados de telecomunicação. Vemos a emergência de uma economia colaborativa que obriga o sistema capitalista a mutar. Por enquanto, as duas formas mantêm um regime de coexistência: uma economia de mercado depredadora por um lado, dominada pelo sistema financeiro brutal, e por outro uma economia de compartilhamento, baseada nas interações entre as pessoas e no intercâmbio de bens e serviços quase gratuitos – embora a dinâmica esteja decididamente a favor desta última.
 
Ainda estão pendentes muitas tarefas: garantir e melhorar os direitos dos e-trabalhadores, regular o pagamento de taxas e impostos das novas plataformas, evitar expansão da economia submersa – o mercado negro deste tipo de atividade –, entre outras. Mas o avanço desta nova economia e a explosão de um novo modo de consumir parecem imparáveis. Fatos que revelam o anseio de uma sociedade exasperada pelos estragos do capitalismo selvagem, e que aspira de novo, como reclamava o poeta Rimbaud, uma grande mudança de estilo de vida.
 
Tradução: Victor Farinelli

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